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O fator Hollande
08/05/12
Celso Ming
É natural que os mercados não tenham se exasperado na segunda-feira com a vitória do socialista François Hollande nas eleições presidenciais da França.
O último que assumiu a presidência da França com discurso de esquerda foi François Mitterrand, em 1981. Levou um ano e meio para abandonar seus discursos e adotar reconhecidamente uma política econômica ortodoxa. Teve todo esse prazo porque, à época, a França não era tão desesperadamente dependente (e refém) dos bancos no financiamento do seu déficit público.
Hollande. Chegou a hora de agir (FOTO: GONZALO FUENTES/REUTERS)
Hollande não terá tanto tempo assim. Já nas primeiras semanas de exercício do seu cargo, terá de explicar aos mercados com quantos paus se fará a canoa do crescimento econômico defendido em seus discursos.
Há somente uma semana, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parecia reconhecer que a recuperação da área do euro não poderia se fiar apenas na austeridade – como saíra no pacto fiscal de final de janeiro. Tinha de ser apoiada também numa forte agenda de crescimento – conforme defendia Hollande. Mas nesta segunda veio o recado de Berlim: “O pacto fiscal é inegociável”.
O problema é que as concepções de crescimento econômico de Merkel e Hollande não são exatamente as mesmas. Merkel defende a austeridade das contas públicas como precondição do crescimento sustentável. Hollande parece privilegiar o avanço das despesas públicas, financiadas com o despejo de títulos públicos cujo principal comprador seria o Banco Central Europeu.
Mas a questão central não é fiscal. Ou seja, não é o desequilíbrio das contas públicas, mas a baixa competitividade da França e de quase todo o bloco do euro – como advertem, nisso com razão, os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz. Isso posto, ganhos de competitividade terão de ser recuperados por meio de ajustes de renda (salários e aposentadorias), processo no qual a Alemanha está bem mais avançada.
Mais do que o saneamento das contas públicas, o processo de crescimento econômico e de ganhos de escala (aumento da produtividade) terá de acontecer com reformas mais profundas – que, por vezes, são mencionadas por eufemismos como flexibilização das leis trabalhistas e novas condições previdenciárias.
O principal fator por trás da perda de competitividade e do avanço do desemprego nos países avançados e, especialmente, na Europa é o enorme processo mundial de redistribuição do trabalho, que vem incorporando entre 40 milhões e 50 milhões de asiáticos por ano ao mercado de trabalho (e de consumo). É a incorporação de mão de obra barata e o crescente emprego de Tecnologia de Informação que produz o impressionante barateamento dos produtos industriais, que vão alijando do mercado global os sistemas produtivos incapazes de se atualizar.
É daí que vem a enorme transferência da indústria e do setor produtivo para a Ásia e para um punhado de países ainda em desenvolvimento. A crise financeira somente escancarou as fragilidades antes latentes dos países avançados. O principal concorrente da França e da periferia da Europa não é a Alemanha, mas a China – verdade para a qual o consumidor europeu mal-acostumado com as benesses do Estado de bem-estar social se recusa a abrir os olhos.
CONFIRA

A primeira reação dos mercados financeiros à eleição do socialista François Hollande à presidência da França foi de certa rejeição. Depois, veio a tranquilidade. Essa sensação parece ter tomado corpo após as declarações do governo da Alemanha: “O pacto fiscal é inegociável”. Acima, o comportamento de sete bolsas de valores na segunda-feira.
Fonte: Blog do Ming (http://blogs.estadao.com.br/celso-ming)

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