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Essa tal Sustentabilidade – Participação da Profa. Alda Marina
10/11/10

por Erica Cristina da Silva Gomes
Um planeta que contabiliza mais de 1 bilhão de famintos. Uma população que percebe progressivamente o risco de escassez da água doce. Países que necessitam encontrar soluções urgentes para o excesso de lixo produzido. É neste contexto que se populariza o uso do termo Sustentabilidade. Muitos acreditam ainda tratar-se de um vocábulo constituinte apenas do dicionário de ecologistas. No entanto, a cada dia a expressão está mais presente no cotidiano de qualquer cidadão e do ambiente empresarial. Mas, afinal, de onde surgiu essa tal Sustentabilidade?
Engana-se quem pensa que a discussão sobre o assunto tem origem recente. Foi ainda na década de 50, nas universidades americanas, que surgiram as primeiras reflexões sobre os conceitos de responsabilidade social, que evoluíram para Sustentabilidade. Em 1987 a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento lançou o Relatório Brundtland que trouxe uma ideia de desenvolvimento econômico que atendesse às necessidades do presente sem comprometer a satisfação das necessidades e a sobrevivência das gerações futuras. Em 1994, o inglês John lkington agregou ao termo o conceito Triple Bottom Line, ou seja, as empresas deveriam olhar seus negócios levando em conta três dimensões: econômica, humana (social) e ambiental.
Desde então, proliferaram-se as definições de Sustentabilidade. Mas, ainda assim, há um consenso: trata-se de uma questão capaz de repercutir em aspectos essenciais para a manutenção, continuidade e sobrevivência das empresas. Consequentemente, o assunto para o desempenho dos negócios nos modelos contemporâneos e de seu respectivo nível de aceitação junto aos públicos de relacionamento, os chamados targets das marcas de consumo. Os impactos ainda vão mais longe. Sustentabilidade pode ser considerada, hoje, sinônimo de conservação da espécie humana.
Pela relevância contemporânea do tema, a REP conversou sobre o assunto com especialistas, representantes de empresas e integrantes do Terceiro Setor: João Gilberto Azevedo é gerente de comunicação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social; Raimundo Augusto de Oliveira é membro da Direção Executiva Colegiada da Associação Brasileira de Organizações não Governamentais (ABONG); Vania Somavilla é diretora de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Vale; Sérgio Leão é diretor de Meio Ambiente da Odebrecht; Alda Marina Campos é Mestre em Administração de Empresas, professora do IGEC/FACHA, Fundadora e Diretora da PARES Resultados Sustentáveis; Juliana Amaral Toledo é advogada especializada em Administração de ONGs, Cooperativas e Empresas Sociais pela SDA Bocconi, Milão. Todos eles têm em comum o fato de uma boa parte de suas agendas diárias ser direcionada a processos e, principalmente, resultados sustentáteis.
Qual é o conceito de Sustentabilidade adotado pela instituição que representa?
João Gilberto Azevedo | Instituto Ethos- Utilizamos o conceito mais aceito de Sustentabilidade, baseado nos pilares econômico, social e ambiental. Por várias razões, a Sustentabilidade é veiculada nos meios de comunicação de forma mais fragmentada. Muitas vezes associa-se apenas à esfera ecológica, mas é preciso desmistificar as questões sociais que estão no centro da discussão de Sustentabilidade. A pobreza é o principal ponto. É impossível pensar em Sustentabilidade quando o acesso aos direitos está sendo violado. Assim, não dá para uma empresa dizer que é sustentável se está situada em um ambiente de miséria. Outra questão que precisa ser levada em consideração, por exemplo, é qual a responsabilidade que uma empresa tem em relação aos filhos dos funcionários? As crianças estão vacinadas? Como a comunidade pode participar da cadeia da empresa? Esses são apenas alguns dos pontos que precisam ser avaliados quando nos referimos à Sustentabilidade.
Raimundo Augusto de Oliveira | ABONG -A ABONG compreende sustentabilidade – no que se refere às organizações sem fins lucrativos, em especial às organizações de defesa de direitos humanos e da democracia – como a conjunção de elementos dinâmicos, processuais e históricos, relacionados ao fortalecimento da identidade de uma organização, capazes de assegurar tanto a existência física, sem precarizações nas relações profissionais internas, quanto à visibilidade política das organizações a curto e médio prazos.
Sérgio Leão | Odebrecht -O conceito básico é que todo empreendimento deve ser indutor do desenvolvimento em bases sustentáveis. Desde sua concepção, com a escolha correta de modelos. Durante a sua construção, com a opção de métodos executivos que minimizem a utilização de recursos naturais e emissão de gases geradores de efeito estufa. Em tudo, potencializando a eficiência operacional ao longo de sua vida útil. Como pano de fundo, a geração de benefícios para os clientes, os acionistas e as comunidades, contribuindo para a conservação do meio ambiente.
Vania Somavilla | Vale - A estratégia de Sustentabilidade da Vale preconiza a gestão responsável das questões econômicas, ambientais e sociais, de forma integrada. O objetivo é propiciar que nossos negócios, em particular as operações de mineração, produzam riquezas locais, regionais e globais, mas também suportem a construção de um legado positivo ao longo do ciclo de vida dos nossos empreendimentos. Para isso, realizamos ações empresariais voluntárias e em parceria com os diversos níveis de governo, instituições públicas, outras empresas e a sociedade civil.
De que forma a questão da Sustentabilidade entrou para a agenda de preocupação das empresas e instituições brasileiras?
Alda Marina Campos - O movimento de mobilização para a conscientização e atuação por parte das empresas partiu do Terceiro Setor e teve o Instituto Ethos como principal agente desde sua fundação, em 1998. Sobretudo a partir 2007, com os relatórios do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a Sustentabilidade conquistou destaque na pauta empresarial. A gestão dos impactos sociais e ambientais ganharam progressiva relevância no julgamento da opinião pública sobre a reputação e a imagem de uma empresa. Em busca de diferenciação, as empresas foram gradativamente fazendo a transição de um posicionamento defensivo para um proativo, protagonista em movimentos e programas socioambientais. Interessante notar que o termo Sustentabilidade foi inicialmente mais utilizado pelas empresas associado aos impactos ambientais e RSE (Responsabilidade Social Empresarial) aos sociais.
Existe no Brasil alguma lei que se refira à questão da Sustentabilidade?
Juliana Amaral Toledo - Nossa Constituição também contém artigos que estão diretamente ligados ao tema do desenvolvimento sustentável, que foi inserido como princípio tanto nas questões ambientais, como nas questões de ordem econômica. O artigo 225 da Constituição Federal, por exemplo, estabelece o direito de “todos” ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida. A tutela do meio ambiente ganhou um capítulo específico na nossa Constituição. No artigo 170, o tema da Sustentabilidade está presente na descrição dos princípios que devem nortear a ordem econômica, tais como a função social da propriedade, a defesa do meio ambiente e o combate às desigualdades regionais.
Em sua opinião, o que caracteriza uma empresa sustentável?
João Gilberto Azevedo | Instituto Ethos - Não existe empresa sustentável, mas sim um caminhar. Não há atividade humana sem impactos, apenas podemos minimizá-los ou torná-los positivos. Para exemplificar, temos práticas de pequenas e médias empresas que estão fazendo um trabalho extraordinário na sua cadeia de valor. Elas começaram com processos de reciclagem e hoje já estão trabalhando com produtos que a princípio iriam para o lixo, mas que hoje são direcionados para outras empresas. O equívoco mais comum é achar que uma ação específica torna uma empresa sustentável. Não basta apenas fazer uma campanha. É preciso entender sistematicamente seus impactos para atuar sobre eles de forma vantajosa. É coerente e necessário entender de forma sistêmica a questão da Sustentabilidade e levá-la para o seu planejamento estratégico.
O que significa Sustentabilidade dentro de uma ONG?
Raimundo Augusto de Oliveira | ABONG - O conceito de Sustentabilidade, na perspectiva que defendemos, deve ter como alguns de seus pilares a integração dos seguintes aspectos: a permanente capacidade, por parte das organizações de defesa de direitos humanos, de constituição de fontes diferenciadas de financiamento, em especial com apoios institucionais; o fortalecimento da visibilidade e da legitimidade institucional junto aos diferentes segmentos da sociedade e do Estado; a consolidação de alianças estratégicas com movimentos sociais, através de redes e fóruns capazes de contribuir para a visibilidade de agendas políticas que incidam em transformação social; e capacidade interna de gestão e de transformação da cultura institucional, com vistas a repensar relações de poder, de otimizar e de potencializar recursos institucionais. Sustentabilidade, portanto, mais do que um conceito no campo da gestão administrativa, deve se constituir em instrumento propulsor de reflexões sobre o sentido político da existência das organizações.
De que maneira o conceito Sustentabilidade é incorporado nas práticas cotidianas da sua empresa?
Sérgio Leão | Odebrecht - O tema Sustentabilidade é de responsabilidade de executivos e suas equipes e deve estar inserido naturalmente nos nossos negócios e não como um complemento ocasional, oportunista ou optativo. A adoção de práticas empresariais sustentáveis melhora as condições de vida das pessoas, reduz os impactos ambientais e promove a adequação dos projetos às regiões, ampliando seus benefícios, favorecendo a produção regional e reduzindo o consumo de recursos naturais, especialmente os não renováveis.
Vania Somavilla | Vale - A Sustentabilidade é um conceito importante para qualquer empresa hoje. Na área de mineração também é fundamental. As empresas desse setor, como a Vale, chegam a muitos municípios pobres, com pouca infraestrutura, precisam colaborar para que essas cidades tenham melhores condições de receber seus empregados, para que seus moradores também possam trabalhar nela ou sejam fornecedores e devem contribuir para que esses locais continuem se desenvolvendo mesmo depois do fim de sua operação.
Vocês elaboram relatórios de Sustentabilidade?
Sérgio Leão | Odebrecht -Os controles ambientais são feitos através dos Indicadores de Saúde e Segurançano Trabalho e Indicadores Socioambientais (Isam). Este último por exemplo, inclui a identificação e o controle dos impactos, o monitoramento ambiental, a preparação para situações de emergência, o tratamento de efluentes sanitários e industriais, o controle das emissões atmosféricas, a contenção de processos de erosão e a separação e contenção de resíduos sólidos perigosos. Estas informações também estão integradas ao Relatório Anual da Organização e existe um documento específico das ações no entorno de nossas operações.
Vania Somavilla | Vale - Elaboramos relatórios de Sustentabilidade anualmente. A cada ano buscamos ser mais transparentes, apresentar mais informações para nossos públicos de interesse. O último relatório, referente a 2009, foi classificado no nível A+ pelo GRI. O documento referente ao ano de 2008 ganhou o Prêmio GRI Readers Choice Award na categoria Sociedade Civil, concedido à organização cujo relatório recebe mais votos de acadêmicos, especialistas, sindicatos de trabalhadores, instituições públicas, cidadãos e mídia.
Conhece iniciativas de Sustentabilidade no mundo corporativo e/ou organizacional que gostaria de destacar por sua relevância?
Alda Marina Campos - Vou citar dois exemplos que gosto muito. O primeiro foi o caminho da Sustentabilidade percorrido pelo Banco Real, hoje integrante do Grupo Santander. É um caso muito interessante de se estudar, sobretudo agora, após a compra pelo Santander, que nitidamente absorveu, entre outros atributos da marca do Banco Real, o de empresa sustentável. O segundo caso que vale menção é o do Walmart no Brasil. A empresa adotou práticas diversas, norteadas pelo objetivo do resultado triplo, conseguindo o reconhecimento como a empresa sustentável do ano, segundo o Guia Exame da Sustentabilidade 2009. Um episódio destacado pela publicação foi o movimento feito pela empresa diante do relatório do Greenpeace intitulado “A Farra do Boi”, denunciando práticas de devastação de reservas florestais para a exploração da pecuária de corte. Em suma, vendo seu nome na lista de empresas compradoras da carne desses produtores, o Walmart se colocou à disposição do Greenpeace para integrar e liderar o time de empresas que poderiam embargar a carne proveniente daquela região e ser parte da solução.
Do ponto de vista legal, quais são os benefícios de uma empresa investir em Sustentabilidade?
Juliana Amaral Toledo - A questão da prevenção do risco é muito relevante, especialmente nas empresas cujas atividades geram forte impacto sobre o meio ambiente e a comunidade do entorno. Quem já inclui na rotina dos negócios e na estratégia de gestão o respeito ao meio ambiente e aos interesses dos diversos portadores de interesses na atividade empresarial não tem os dissabores da remediação, ou mesmo prejuízos com multas, greves e outras consequências que causam prejuízo direto às empresas. Nos processos de fusões e aquisições de empresas e na avaliação dos investimentos, são muitas vezes realizadas auditorias sobre os intangíveis. Nesse sentido, o bom relacionamento com os stakeholders (pessoa ou entidade que afeta ou é afetada pelas atividades de uma empresa) e a boa conduta empresarial voltada para a Sustentabilidade tem direta relação com o valor da marca. Para determinados investimentos, como nas áreas da cultura, esporte e criança e adolescente, as empresas contam com benefícios fiscais decorrentes das leis de incentivo. Também já existem linhas de financiamento com taxas de juros mais favoráveis para o desenvolvimento de negócios e iniciativas relacionadas com a Sustentabilidade, como no caso das tecnologias de uso de energia renovável.
Fonte: www.repweb.com.br

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