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A baixa taxa de abstração
17/12/12
Uma alta taxa de abstração é fundamental para o diálogo, para a troca, para a inovação e para a colaboração, infelizmente não é o que temos como padrão hoje depois de décadas de ditadura cognitiva.
Versão 1.0 – 14 de dezembro de 2012
Rascunho – colabore na revisão.
Replicar: pode distribuir, basta apenas citar o autor, colocar um link para o blog e avisar que novas versões podem ser vistas no atual link.

Uma das grandes dificuldades que temos hoje ao ensinar, fazer consultoria, dar palestras é combater a nossa baixa taxa de abstração.
Ela é fruto da ditadura cognitiva que termina com o fim da era cognitiva impressa/eletrônica e o início da nova primavera digital. (Uma ditadura cognitiva, ao contrário de uma social, não tem um ditador de plantão, ela é condicionada pelas tecnologias de comunicação/informação disponíveis.)
Nesse contexto, temos uma escola reprodutora e não criadora de conhecimento, o que nos leva a um aumento radical do nosso piloto automático, que aposta tudo na memória e pouco no aumento da taxa de abstração.
Esse diagnóstico nos leva aos seguintes sintomas:
- Temos a ilusão que a realidade existe;
- Que a ciência estuda a realidade e não a percepção da realidade;
- Que é possível com estudo chegar na realidade como se ela fosse algo parado e quem se mexe são as pessoas em direção à ela;
- E, por fim, a incapacidade de criar, de inovar e sair das caixas: o eu e a realidade estão colados.
Só conseguimos criar, quando podemos olhar para como olhamos!
Gosto da frase:
“Ver diferente é a condição necessária para continuar a ver” – Gaston Bachelard;
Gleiser no livro Criação Imperfeita quebra com essa ideia da realidade final ou definitiva ao sugerir que ela é histórica, inatingível, pois só conseguimos ver aquilo que medimos, a cada fase da evolução humana.
A realidade é datada!

Nossa capacidade de medir é condicionada por mentes e máquinas que se debruçam sobre ela. A realidade, assim, seria muito mais versionada (ou seja tem versões) do que achamos e a cada época se modifica. A ideia de uma realidade sólida é fruto dessa incapacidade de abstração. A de uma realidade líquida, construída pela diálogo, vai ganhando forma, conforme a taxa de abstração vai subindo.
Assim, a ciência não é o estudo da realidade, mas o estudo das percepções que temos da realidade.
Como vemos na figura abaixo:
(Por isso, a filosofia – que é o estudo de como pensamos – acaba aparecendo ao nos aprofundarmos em um dado problema, pois ajuda a analisar nossos modelos mentais. E o estudo das ciências é o estudo também dos modelos mentais que constroem as nossas percepções.)
Hoje a realidade (por isso entre aspas e mutante) é uma, amanhã será outra, a partir de nossos avanços (e também retrocessos), o que nos leva a ideia de que estamos em um movimento e tudo depende de nossa capacidade enquanto grupo humano de avançar e individualmente de abrir espaço entre o eu e a percepção da realidade.
A variação da taxa de abstração
Podemos dizer, assim, que somos mais ou menos oprimidos quando conseguimos perceber a realidade como um movimento, como o qual nos relacionamos, como algo vivo. Quanto mais a realidade é sólida para uma pessoa ou um grupo, mais oprimido estamos por ela!
Podemos tentar sugerir que existiriam, assim, três camadas humanas ao sentirmos/pensarmos o mundo:
- O eu que é como nos vemos;
- Um espaço entre o eu e a realidade, que é minha percepção da percepção que tenho da realidade, um espaço vazio para olhar e ver como sinto e penso, ou seja uma capacidade de olhar de fora, de me ver pensando e sentindo, como se fossem dois – o que é a única forma de poder mudar;
- E a realidade mutante, que está fora de mim, como algo observado e que me faz mudar as minhas percepções, a partir das trocas que estabeleço com fatos, experiências, pessoas, ideias, etc.
Note na figura abaixo que quanto maior for a minha capacidade de observar a percepção da percepção que tenho da realidade, mais aumento a minha taxa de abstração, pois eu consigo olhar para o que penso sobre a realidade, quase de fora, não tendo a ilusão que estou vendo a realidade diretamente, o que abre espaço para a troca e o conhecimento não-dogmático, para a capacidade de ver e não ser “domesticado”.
Veja abaixo:
Podemos chamar essa medição de taxa de abstração.
Quanto mais eu consigo olhar como olho/sinto o mundo, mais tenho capacidade de conversar, debater, aprender, pois mais sei que estarei sempre conversando sobre percepções e trocando percepções – de uma realidade inatingível.
Uma alta taxa de abstração é fundamental para o diálogo, para a troca, para a inovação e para a colaboração.
Uma pessoa que não consegue dialogar sobre a percepção da realidade tem uma baixa taxa de abstração, pois juntamente cola o seu eu na realidade, acreditando que tudo que ela vê É A PRÓPRIA REALIDADE.
Pessoas dogmáticas/fanáticas têm essa características, como demonstrado na figura abaixo:
O problema é que com uma ditadura cognitiva, como essa que termina agora, atingimos MUNDIALMENTE uma baixíssima taxa de abstração com pouca capacidade de criar projetos diferentes dos atuais.
Estamos muito próximos da figura acima.
Os efeitos das ditaduras na nossa visão de realidade
Assim, podemos dizer que individualmente quando fazemos psicanálise (ou outro método terapêutico qualquer), participamos de espaço de reflexão/ação, criamos espaço de nos olhar de fora através, por exemplo, da meditação, começamos a aumentar a nossa taxa de abstração.
A taxa de abstração é individual e cada um tem maior ou maior grau, dependendo do dia, semana, mês, ano, crises, fases e conjuntura da vida, etc. Além de algo que é genético, que leva a algumas pessoas terem um cérebro mais abstrativo do que os demais, tais como Einstein, Freud e Darwin, por exemplo, que conseguiram olhar a realidade muito mais do alto e fazer muito mais conexões inusitadas do que a maioria das pessoas.
Porém, há também a taxa de abstração coletiva e a relação desta com a da circulação das ideias e destas com as ditaduras sociais ou cognitivas.
Podemos lembrar que o primeiro ato de qualquer ditadura (a história está aí para comprovar) é a de impedir a circulação de pessoas e ideias.
O objetivo é construir uma noção mais única da realidade, reduzir a taxa de abstração e fazer com que as pessoas aceitem as coisas como são, “deixem a vida nos levar”, reduzindo a entrada no ambiente cognitivo de novas ideias, que vão levar às pessoas a questionarem a sua noção da realidade.
A realidade será mais e mais aquela que os controladores dos fluxos determinar, pois não há nada que faça a contra-posição e que obrigue as pessoas a olhar como elas pensam. Isso ocorre de forma periférica e muito pontual.
Ditaduras trabalham fortemente para reduzir a taxa de abstração. Não é à toa que a arte e a filosofia são logo atacadas, pois vão na direção contrária.
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Já existem vários estudos sobre ditaduras sociais e até os efeitos destas nas sociedades e nos indivíduos.
- São análises que estudam como um regime político em um dado país ataca a circulação de ideias e pessoas, a partir de uma ideologia autoritária e as consequências que causam.
- Porém, não temos ainda estudos sobre ditaduras cognitivas, aquela em que um ambiente cognitivo global prejudica a circulação de ideias e pessoas, a partir de uma tecnologia restritiva, como é o caso das utilizadas nos ambientes cognitivos da escrita impressa e mídia eletrônica, que estão migrando, aos poucos, para outra etapa.
Podemos observar, assim, que nos últimos séculos, a partir de 1800, fomos, aos poucos, mais e mais centralizando os fluxos das ideias, reduzindo, pela ordem:
- o tempo cada vez mais longo da chegada de novas fontes na sociedade;
- o que nos leva à redução da meritocracia;
- redução dos pontos de vistas;
- pasteuriza-se, assim, as ideias circulantes;
- cria-se uma baixa taxa de abstração e, portanto, de inovação.
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O resultado disso é que reduzimos bastante a taxa de abstração das pessoas, que estão começando – bem no início – a sair dessa ditadura cognitiva com a nova liberdade de circulação de ideias trazidas pela Web 2.0. Elas começam a ser demandadas para sair da caixa, mas justamente foram preparadas para continuar e nem ver que a caixa existe!
Vemos isso em todos os lugares.
As pessoas têm muita dificuldade de ouvir e receber novas ideias, ainda mais se elas forem bem diferentes daquelas que estão empacotadas na sua cabeça e coração. Não há espaço abstrativo para colher a novidade.
Estamos tão colados na realidade, como se ela fosse única e imutável.
Somos filhos da ditadura cognitiva que termina. Questioná-la é questionar as próprias pessoas, pois a realidade é a própria pessoa!
O eu e a realidade se misturam, como se fossem únicos, eis a gravidade do problema, que impede que surja o novo e a inovação!
Os efeitos da baixa taxa de abstração na capacidade de inovação
Uma baixa taxa de abstração coletiva, mundial, como é o caso nos leva a situações interessantes (e trágicas), a saber:
- - as pessoas se voltam mais e mais para objetivos menores, individuais e pouco coletivos;
- - se agarram ao prazer imediato, tal como em adquirir bens materiais;
- - perdemos nossa capacidade de planejar no longo prazo, apenas no curto;
- - aumenta-se, assim, a taxa de adoração material e reduz-se o espiritual (aqui entende-se como projetos coletivos da humanidade).
Como a realidade é imutável, pois é única e sólida, perdemos a capacidade de propor projetos coletivos, o que nos leva a nos voltar para o próprio umbigo, fortalecendo-se o individual em detrimento do todo.

Perdemos nossa capacidade de abstrair, de inovar, de sair da caixa para uma caixa maior (que seria mais espiritual = coletiva).
E o mais interessante que quando estamos com essa baixa taxa de abstração é justamente nesse final da ditadura cognitiva que mais precisamos dela, pois tudo começa a mudar, a inovação começa a ser algo bem difundido, como foi depois da revolução cognitiva do papel impresso, que nos levou à renascença.
Estamos, portanto, amarrados, dogmaticamente e dramaticamente, em uma caixa pequena, apertada, escura, com pouco ar, pois nosso eu colou na realidade.
É um dilema grave.
Precisamos abstrair, inovar, criar, voar mas não conseguimos, pois fomos educados em um índice muito baixo de abstração e isso atinge também a geração y, que apesar de estar já no novo ambiente de forma integral, ainda é obrigada a frequentar a escola da ditadura cognitiva passada e ir para o mesmo espaço intoxicado dos ambientes organizacionais.
Por isso, tenho procurado nos meus encontros promover um intenso debate, apresentando uma realidade líquida e participativa, para abrir portas, que sempre existem esperando chaves, para aumentar essa taxa da abstração – prisioneira nesse velho castelo cognitivo que começa a ruir.

A batalha é essa.
É coletiva e mundial.
Pergunto: vais ajudar a aumentar a sua taxa e dos demais?
Tá dentro?
Que dizes?
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital
Meritocracia 2.0
03/10/12
Por Carlos Nepomuceno*
Estamos saindo de um ambiente intoxicado, no qual todos os canais de informação tinham um forte interesse naquilo que era veiculado sobre produtos e serviços, pois eram passíveis de serem anunciados. Ninguém ia “cuspir no prato em que comia”. A alta a taxa de interesse na informação circulante o que reduzia bastante a taxa de meritocracia social.

Mandei a seguinte frase para o Facebook:
Quando a taxa de circulação de ideias sobe, a da meritocracia acompanha e vice-versa.
E recebi como retorno de uma amiga:
“Será? Eu juro que quero muito acreditar.”
A ideia de acreditar é um ato de fé.
Como procuro ser um jornalista independente – e agnóstico – que gosta de propor provocações lógicas (que alguns podem chamar de filosóficas-científicas), vamos desenvolver um pouco o tema, a partir de argumentos e constatações visíveis a olho nu.
(O que espero aqui não é que acreditem, ou não, mas que considerem os argumentos consistentes ou que possam contra-argumentá-los.)
A Internet, como tenho dito aqui, rompeu um modelo secular de controle de ideias da mídia impressa e eletrônica, através do surgimento de novas fontes, por um lado, e a possibilidade do usuário poder apontar (e deixar registrado para os outros) aquilo que ele considera meritório.
Estamos saindo de um ambiente intoxicado, no qual todos os canais de informação tinham um forte interesse naquilo que era veiculado sobre produtos e serviços, pois eram passíveis de serem anunciados. Ninguém ia “cuspir no prato em que comia”.
As críticas de plantão, quando haviam, eram moderadas e feitas apenas por poucas pessoas.
O boca-a-boca era entre conhecidos e em ambientes locais.
A chegada do ambiente 2.0, a partir de 2004, permitiu, assim, o aumento da taxa de meritocracia, pois além do obrigatório clique, que veio desde o berço da Internet, passou a permitir, de forma fácil e de graça:
- - compartilhar;
- - curtir;
- - estrelar;
- - comentar;
- - em alguns casos como no Wiki (mudar);
- - entre outras colaborações participativas.
Note que temos com essa prática uma mudança RADICAL em relação à meritocracia passada, pois ao consumir o cidadão/consumidor pode (não necessariamente vai) avaliar e deixar um rastro (muito mais desinteressado do que no passado) para que outros possam saber o que achou da sua experiência.
O que era aceito, não sabido, desconhecido no passado, passou a vir para a luz do dia, aumentando o espaço de avaliação de mais gente por mais gente. Os ofertantes de produtos e serviços, em função desse novo ambiente mais aberto, precisa se readequar;
Estamos saindo, portanto, do marketing do controle, da repetição, do “enrolation” para o da conversa, do diálogo e mais focado em princípios.
Isso vale para todos os serviços e produtos, pois é essa a grande mudança do ponto de vista meritocrático que temos no novo mundo. E é o grande salto de qualidade que as organizações devem tomar internamente e externamente para criar inovação.
Hoje, qualquer produto/serviço está sujeito a ser identificado por:
- - mais clicados;
- - mais compartilhados;
- - mais curtidos;
- - mais estrelados;
- - mais comentados positivamente;
- - mais comentados negativamente;
- - mais blogados positivamente;
- - mais blogados netativamente;
- - e até mais wiki-modificados.
Cria-se com essa prática um conjunto de informações “não-oficiais” e não diretamente interessadas diretos na venda/apoio de conhecidos e de desconhecidos sobre um determinado produto, serviço, arquivo, pessoa, vereador, taxista, livreiro, cinema, hotel, restaurante, etc…

Ou seja, há um aumento radical da taxa de informação “não interessada” ou se preferirem “menos interessada” na/da sociedade, desintoxicando os canais de informações, que antes tinham uma alta taxa de interesse embutida, pois o canal que informava era o mesmo que vendia anúncios.
Esse aumento de troca entre conhecidos e desconhecidos nos leva a um aumento da transparência e necessariamente a um aumento da meritocracia, reduzindo bastante o espaço de determinadas sombras existentes.
Antes da Internet, um músico, por exemplo, só poderia chegar a um reconhecimento nacional se passasse por alguns filtros das gravadoras, que tinham lá seus interesses, critérios, parentes, etc.
O tempo de “a” início da luta pelo reconhecimento nacional para “b” reconhecimento era longo e penoso.
Hoje, continua-se podendo ser alçado por gravadoras mais tradicionais, mas cada vez mais novos músicos passam pelo critério do próprio público, através de lançamentos, via rede, em muitos casos conseguindo sobreviver só com seus fãs diretamente, reduzindo o tempo entre“a” e “b”.
Isso pode ser medido, basta promover pesquisas.
Exemplos?
- A Folha de São Paulo contratou uma nova leva de colunistas que vieram dos blogs;
- Os novos humoristas que hoje fazem sucesso (Marcelo Adnet como grande representante) vieram todos do Youtube.
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Nada aponta que isso vá se reduzir, ao contrário, vai aumentando, pois é de lá que a nova geração reconhece novos talentos.
(E já criando a cultura de reconhecimento de nicho e não mais a necessidade de reconhecimento nacional, como um critério de “sucesso”.)
Digamos que uma sociedade consegue melhorar seus produtos e serviços, através da troca desinteressada e constante entre pessoas que não tenham interesses individuais envolvidas na informação que circula e é compartilhada.
E aí se pode argumentar, como saiu no Globo ontem, “Muito cuidado com o “boca a boca” virtual” de que essa meritocracia 2.0 já tem um conjunto de gente contratada para manipular os dados na Internet.
Sim, essa será uma reação para todos aqueles que querem, ao invés de adotar novas práticas, tentar manter o modelo passado, o que, aliás, é humano.
Porém, os ambientes 2.0 já estão exigindo um novo tipo de mentalidade, metodologia e tecnologias que devem procurar – cada vez mais – aprender com os erros para evitar a manipulação.
O ser humano não está ficando bom com a Internet, mas apenas tendo que parecer muito melhor do que é em função da nova pressão exercida. Essa nova pressão e esse fingir que é bom acaba fazendo que a pessoa adote com o tempo a prática por costume, o que leva a um novo patamar humano. Foi assim no passado, por exemplo, com o fim da escravidão.
Por fim, podemos destacar que o trabalho principal do Google ao melhorar seu algorítimo, por exemplo, criando normas e formas de evitar que mudanças nos códigos nas páginas – não meritocráticas – as elevem ao topo.
Ou seja, a velha e eterna luta entre os interesses coletivos x o individuais.
Essa é a metodologia 2.0 em ação para garantir que a taxa de meritocracia continue alta e subindo, até que um grupo consiga formas de se controlar as ideias desinteressadas circulantes.
Aí podemos ter de novo a taxa caindo em um eterno ciclo de sobe e desce.
Por aí, que dizes?
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital
Governo 2.0 – onde estamos e para onde vamos?
18/07/12
Estamos repetindo na área pública (igual à privada) o mesmo modelo de implantação das “Redes Sociais” que tivemos com a chegada da Internet/Intranet, tendo como setores responsáveis a TI e/ou comunicação e/ou marketing (mais raro) e/ou gestão de conhecimento. Porém, avisa-se: esse modelo NÃO ESTÁ DANDO CERTO!
Versão 1.0 - 18 de julho de 2012
Rascunho – colabore na revisão.
Replicar: pode distribuir, basta apenas citar o autor, colocar um link para o blog e avisar que novas versões podem ser vistas no atual link.

Já há uma certa demanda dos gestores da área governamental para saber afinal de contas como começar a implantar projetos de Redes Sociais.
Mais do que isso. Começa-se a temporada de investimento generalizado nesse campo, pois a pressão é grande, mas os resultados até aqui são pífios.
As dúvidas abrangem duas frentes:
- comunicação interna – ou intranets 2.0, colaborativas – como fazer isso?
- comunicação externa – presença nas mídias sociais: Facebook, Twitter, etc – como fazer isso?
De maneira geral, depois de longa discussão que tive com dezenas de instituições (nos eventos que tenho coordenado) posso dizer que o senso comum que está hoje no mercado passa por pensar tais projetos da seguinte maneira:
- - implantar redes sociais (internas e externas) são basicamente projetos tecnológicos, operacionais, dentro de uma área fim da organização.
Estamos repetindo o mesmo modelo de implantação das “Redes Sociais” que tivemos com a chegada da Internet/Intranet, tendo como setores responsáveis a TI e/ou comunicação e/ou marketing (mais raro) e/ou gestão de conhecimento.
De maneira geral, os projetos começam a aparecer nas organizações, os primeiros reais começam a ser gastos, através, geralmente, da contratação de agências digitais de comunicação na parte externa. E na contratação de empresas de tecnologias para colocar algo parecido com o Facebook interno.

Tal como nas organizações privadas, os projetos NÃO ESTÃO FUNCIONANDO.
Não, não é, como muitos acham, um problema do setor público, mas um problema das organizações piramidais, filhas de um ambiente cognitivo específico, que criou uma cultura de gestão, que não é mais compatível com o novo ambiente digital, que cria uma nova cultura de gestão!
O problema principal, a meu ver, é de visão.
Não há um entendimento claro do que, de fato, está acontecendo no macro-cenário da informação e as medidas que estamos tomando estão baseadas em um paradigma pré-ambiente colaborativo.
Vivemos uma macro-mudança civilizacional e estamos COMPLETAMENTE sem ferramentas teóricas e práticas para lidar com ela.
Assim, é bom ter calma, pois é um problema geral, mas que cada um tem que assumir a sua responsabilidade no processo.

Diferente do que o mercado tem apontado, tenho sugerido outra via para implantação de projetos de Redes Sociais em Organizações públicas (e privadas):
- - Os projetos devem ter caráter estratégico, pois trazem uma forte mudança cultural;
- - Devem ser tratados por diversos setores e não apenas um só;
- - E não podem começar e terminar dentro da cultura atual, precisam ter espaços novos para um teste efetivo de conceito – em o que vou chamar “zona de inovação 2.0″.
Explico mais adiante.
Antes de tudo, é preciso, como tenho feito em algumas organizações públicas, criar um espaço de reflexão para compreender a dimensão do que de fato está acontecendo, através de um grupo estratégico para se situar, de forma racional, diante dos fatos.
(Estou fazendo um projeto com essa política no BNDES.)
De maneira geral e resumida, podemos dizer que Governo 2.0 significa:
- A passagem de uma gestão piramidal para uma mais horizontal;
- Uma democratização das decisões;
- O reestabelecimento do diálogo perdido com o cidadão.

Quando, por discussões lógicas, chegamos a compreensão dessa passagem, a maioria das pessoas avalia que NÃO SERÁ POSSÍVEL FAZER ESSA MIGRAÇÃO NA MINHA ORGANIZAÇÃO.
E, depois de muita discussão e prática, acabei tendo a concordar com eles.
Não, não será possível colocar novas tecnologias colaborativas, criando uma nova cultura. em um ambiente não colaborativo.
Sabe por que?
Uma cultura antiga é mais forte do que a nova. Qualquer iniciativa nova dentro da velha, tende a ser rejeitada.
Assim, é preciso inverter o processo.
Criar um espaço novo, no qual a cultura nova é mais forte e ir trazendo problemas para lá, no qual o velho será mais fraco do que o novo.
O que tenho amadurecido – com ajuda da centena de interlocutores da área pública – é que o projeto de implantação da nova cultura digital deve contemplar três ambientes separados na organização:
- 1- o atual que continua a funcionar do mesmo jeito;
- 2- alguns testes e projetos no ambiente atual, colocando pontualmente algumas tecnologias;
- 3- e um novo ambiente completamente novo, um grupo em separado, quase uma startup, que deverá receber problemas para serem resolvidos com a colaboração.
Note bem que não estamos falando de passagem de processos, mas de problemas.
A vantagem do trabalho nestas três dimensões são as seguintes do ponto de vista operacional:
- - não se cria a ilusão de que os projetos 1 e 2 são os projetos que vão transformar a empresa, sendo este o 3, que será a ponta do futuro que está por vir;
- - a possibilidade no ambiente 3 de teste integral do novo conceito para que possa se analisar os problemas de choque cultura e resolvê-los;
- - criar um novo ambiente cultura que o digital seja mais forte do que o análogico, invertendo o espaço 1 e 2, no qual o analógico é mais forte que o digital.
A princípio, as pessoas estranham tal proposta metodológica, pois não acreditam que estamos diante de algo tão diferente assim e que não são duas culturas diferentes, sendo possível colocar uma dentro da outra.
Isso é uma discussão que leva tempo, exige muita conversa e exemplos, principalmente nos setores de ponta que estão no futuro – hoje vê-se claramente que empresas de tecnologia estão usando startups para inovar – fora do ambiente tradicional.
Podemos ainda citar os exemplos da implantação das urnas eletrônicas, que foi assim, protótipo a protótipo, das delegacias legais no Rio de Janeiro, ou mais recentemente o combate ao mosquido da Dengue, experimentando soltar mosquitos machos eunucos em uma cidade do Nordeste para testes.

Do ponto de vista do resultado, essa proposta ainda nos leva:
- - para uma aprovação mais fácil, pois é algo muito mais fácil de gerenciar do que colocar algo novo na produção do dia-a-dia;
- - pode se separar a nova cultura e poder ir passando gradualmente os novos problemas para ela;
- - por fim, há uma redução de custos grande, pois não se tentará mudar algo que não é possível de mudar. Todo dinheiro em 1 e 2 que quiser implantar a nova cultura, ouçam bem, é dinheiro jogado no ralo se guardar a ilusão de que a empresa vai mudar.
Por fim, muitos duvidam que o governo vá mudar por agora e se mudar será algo tão distante que não vale o esforço.

Tais argumentos não se sustentam, pois:
- a) já se está gastando dinheiro, a discussão agora não é essa, mas é como está se gastando e qual o resultado que vai se ter;
- b) se propõe aqui, apenas, que esse gasto seja mais racional, do que emocional para se parecer “moderno”;
- c) por fim, já estamos aprendendo com o projeto do Governo Aberto e Transparente de que as mudanças no âmbito do Governo não são graduais, mas intempestivas, geralmente motivadas por mudanças externas, o que chamei de mudança por vergonha internacional.
Assim, essas ilhas de inovação 2.0 internas são um momento de preparação para que quando vier a ordem de migrar de Governo Aberto (atual) para Colaborativo (futuro) já se tenha alguma experiência para se implantar algo que me parece inevitável.
É o caminho mais difícil de começar, mas o mais barato, rápido e eficaz para migrar.
Que dizes?
Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital
O piloto automático e a inovação
19/06/12
Por Carlos Nepomuceno*
Inovar, a meu ver, o dilema de um mundo hiperpovoado mutante, passa por uma rediscussão dessa base filosófica humana: o que somos e como nos relacionamos com o mundo? Só conseguimos inovar, de fato, e ver o mundo um pouco mais próximo do que ele é, quando conseguimos aumentar a taxa do verdadeiro-eu e reduzir a do falso.
Versão 1.1 – 16 de junho de 2012
Rascunho – colabore na revisão.
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Estou lendo um livro antigo do Krishnamurti “A questão do impossível“, herança do meu pai.
Tenho vários dele.
Basicamente, o filósofo de origem indiana diz que quem comanda nossa vida é o nosso cérebro, que estabelece uma relação deturpada entre quem observa e a coisa observada.
Ao estabelecer essa divisão, a pessoa perde a capacidade de ver, pois o lado de fora está sempre em movimento e o de dentro parado, criando uma divisão entre o fato e a versão.
Segundo ele, nossa mente é entorpecida, viciada e só consegue analisar os fatos com nossas perspectivas passadas.
Krishnamurti não estabelece um método (tem horror a eles), pois acha que qualquer metodologia serve para nublar a mente.
O importante é apenas olhar como olhamos.

Ou seja, ao invés de procurar olhar para fora, olhar para como olhamos, que seria uma forma de acalmar esse “ser que olha que é e, ao mesmo tempo, não nos representa”.
E assim conseguir ver diretamente, ou o mais diretamente possível.
O simples exercício de estabelecer essa divisão:
- Alguém que olha por mim;
- O olhar sobre esse que olha por mim, nos acalma;
- E nos permite, de algum ponto intermediário, ver, de novo, o novo.
Teríamos a possibilidade de criar um vão entre o trem a plataforma. ![]()
(Mind the gap!)
Admitimos, assim, que somos, na verdade dois: um que olha automaticamente e pilota nossa vida – que muitos chamam de ego, piloto automático, caixa; E outro dentro de nós, que olharia para esse de fora – vou chamar esse conflito de embate permanente entre o falso e o verdadeiro-eu.
Apenas um embate sem vencedor.
Talvez, sejamos o resultado dessa luta – com um vencedor a cada minuto, hora, dia, semana, mês, ano, década, vida, enfim.
Somos mais ou menos eu mesmo a cada dia, sabendo sempre que nunca seremos totalmente o verdadeiro-eu o o falso.
Somos a luta e a taxa possível entre estes dois.

Tal ideia da divisão humana entre dois seres (um que olha por nós e outro que deveria olhar o que olha) e a harmonia dessa relação nos daria uma pista do que seria o amadurecimento.
Amadurecer seria a capacidade de perceber (de dentro para fora) como os condicionamentos da sociedade se armazenaram e como são ativados, em que circunstâncias para que possamos desarmá-los.
Tal exercício permanente nos permitira ver o mundo de forma diferente e não mais sempre com olhos do passado, dogmaticamente.
Impedindo de ver de novo, o sempre novo, a partir da ideia de que o rio nunca para de correr.

Muitos consideram que esse “pilotice” automática é algo inerente ao ser humano e irrreversível.
São nossas neuroses, nosso círculo vicioso, que poderia ser mais ou menos consciente, intenso, a nos levar a cometer mais ou menos insanidades.
Seríamos sempre guiados pelos nosso condicionamentos, que nos ajudaram e ajudam a sobreviver.
A sociedade é conservadora para sobreviver – um conjunto de falso-eus ambulantes.
(Será que aquele filme Zumbilânida é uma sátira a isso?)
Nessa linha, Bradshaw, psicólogo americano, defende que, de fato, existe uma mistificação, criada como uma proteção humana em função da nossa “domesticação”.
Nascer e ser civilizado tem um preço, que nos leva a reprimir e criar uma máscara social para recebermos lascas de amor.
Portanto, não somos amados pelo que somos, mas pelos que os outros gostariam que nós fôssemos. Viramos o que as pessoas querem, apesar da raiva e dos problemas que isso causa nas nossas vidas.
Com mais, ou menos intensidade isso deixa marcas.
O problema que é algo tão inconsciente que essa máscara passa a ser nós mesmos (sem saber que a criamos).

(Um parênteses grande para falar das taxas –>
Depois de muito pensar sobre estes temas (ou qualquer outro), amadureci que nós nunca podemos analisar nenhum fenômeno em termos absolutos, pois se tudo é um fluxo em movimento, na verdade, temos variações de “pressão e temperatura”.
- Um leite pode ferver, desde que colocado na panela.
- Se não for para a geladeira, estraga.
- E ingerido vira outra coisa.
O leite tem suas características mutantes, conforme alguns contextos.
Uma boa teoria, na verdade, é aquela que identifica forças em movimento, aquilo que traz a desordem na ordem, em que circunstância, como que relação – tornado-a mais adaptativa aos fatos.
Podemos dizer, assim, que temos taxas de análise para qualquer fenômeno, o que a medicina se utiliza bastante na Epidemologia.
Trabalha-se com probabilidades e não com doenças absolutas.
Isso se consegue como?
Analisando o passado para se projetar o futuro.
Portanto, temos individualmente, em grupos (micro) e na civilização (macro) taxas de consciência desse outro eu, a cada circunstância, em cada pessoa, grupo, a partir de variantes.
Fim do parênteses grande)
Assim, alguns estão mais imersos no seu falso-eu e outros menos, pois conseguiram por várias fatores reduzir o controle do falso-eu sobre suas vidas.

Isso não quer dizer que fulano consegue exercer seu verdadeiro-eu, porém que consegue taxas melhores comparadas apenas com o seu passado e não com os outros, pois cada um tem uma estrada distinta.
Ele é mais verdadeiro do que já foi antes, o que não quer dizer que não possa retroceder.
As maiores taxas do verdadeiro-eu (digamos assim) nos permitem olhar para as coisas com mais estranhamento, como se víssemos pela primeira vez algo que está sempre do nosso lado.
Algo que os poetas e os filósofos procuram constantemente para recriar.
Por fim, se olharmos em termos da macrocognição (análise do macro ambiente de cognição global), estamos saindo de um mundo, no qual tivemos décadas (séculos?) de forte controle da circulação de ideias, pelo ambiente cognitivo de plantão fortemente verticalizado.
Esse tipo de situação nos leva para uma decadência cognitiva (como disse nesse post), no qual a taxa de falso-eu é coletivamente mais alta.
Por quê?
Um dos caminhos para a redução da taxa do falso-eu é o diálogo, a conversa, a troca, o que ficou coletivamente limitado em um mundo com ideias fortemente controladas.
Uma revolução cognitiva, como muitas novas ideias circulando, como estamos vivendo agora, nos condiciona coletivamente para uma redução da taxa do falso-eu, pois recebemos mais estímulos para sair de dentro do nosso casco (de tartaruga humano).
Aumenta-se, independente o esforço individual de cada um, a taxa de verdadeiro-eu no mundo, criando espaço para a inovação que estamos percebendo, novas iniciativas, etc…
Há uma melhora do índice que vem de fora para dentro.

Essa é uma hipótese.
Como já dissemos, tal fenômeno é temporário e transitório.
O trabalho individual de olhar para o que em nós é falso continua e é o que faz diferença em cada um e não no todo, pois deve existir também o movimento que vem de dentro para fora, aproveitando-se ou não das macro condições.
É o amadurecimento que não é condicionado, mas algo que parte do livre arbítrio e da capacidade de perceber esse falso-eu. Ou de crises que o falso-eu nos coloca, que nos joga necessariamente para uma mudança!
Inovar, a meu ver, o dilema de um mundo hiperpovoado mutante, passa por uma rediscussão dessa base filosófica humana – talvez agora o condicionamento seja mais nocivo para o todo do que foi antes.
O piloto automático nos impede de mudar a taxas que são hoje necessárias.
Só conseguimos inovar, de fato, e ver o mundo um pouco mais próximo do que ele é, quando conseguimos aumentar a taxa do verdadeiro-eu e reduzir a do falso, pois do contrário iremos repetir o que nos foi condicionado!
E podemos nos perguntar: será que teremos que ser mais espiritualizados para poder ser mais inovadores? E o falso-eu é algo que vai cada vez mais atrapalhar um mundo hiper-povoado? Teremos uma mudança da taxa do falso-eu por necessidade de sobrevivência?
Ou o mundo que estamos entrando terá uma taxa de falso-eu reduzida do que foi no passado e se estabilizará em outro patamar?
Não sei, a pensar.
É isso,
Que dizes?
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação de Gestão Estratégica do Marketing Digital
Avisa: implantação de Redes Sociais Digitais Corporativas é mudança de processo!
21/11/11
As redes sociais não são coisas diferentes das empresas, mas são o futuro das empresas – Nepô – da safra 2011;
Versão 1.0 – 21/11/2011 – Ainda rascunho – colabore com a revisão!
(Texto faz parte do meu novo e-book - Gestão da Desintermediação – uma obra em progresso.)
É muito mais difícil imaginar implantar Redes Sociais Digitais Corporativas dentro de uma organização que não se vê como uma grande rede.
Dessa maneira, consideram que a organização é uma coisa e o movimento das “Redes Sociais” lá fora ou iniciativas isoladas são outra.
U um corpo estranho é mais uma coisa e não algo a ser alcançado.
Como a fábula do Patinho Feio, que se acha feio por que é pato, mas, no fundo, é ganso.
Ou seja, as redes sociais não são coisas diferentes das empresas, mas são o futuro das empresas. A nova forma de operar! É difícil cair essa ficha!
É importante alinhar a visão.
Se tudo é rede, como detalhei aqui, as Redes Sociais Digitais Corporativas serão um upgrade nas redes atuais, através da implantação de uma nova cultura de controle mais horizontal, pois as empresas estarão apenas se aprimorando, bastante é verdade, mas nada mais do que isso.
Como disse, é preciso, então, re-radiografar a organização com outros olhos.

Nessa direção, podemos classificar três tipos de redes na organização, sobre o ponto de vista dos objetivos: de ação, de conhecimento e de relacionamento.
Pois bem, quando vemos o processo de implantação de Redes Sociais Digitais Corporativas podemos dizer que as pessoas atuam e acham que todo o processo começa e termina na implantação de redes de conhecimento e relacionamento.
Porém, são raros os que enxergam que a implantação de Redes Sociais Digitais Corporativas é basicamente uma nova forma de trabalhar, alterando todos as redes, incluindo também as de ação.
No projeto de um cliente ano passado, um dos participantes me até perguntou se o projeto de implantação de blogs corporativos erá só de Comunicação (Rede de Relacionamento) ou mudança de processo (Rede de Ação).
O objetivo, respondi, era o de chegar nos dois, mas o mais difícil é a tentativa de mudar processos ainda mais em uma nova cultura mais horizontal.
Hoje, os projetos testados são mais na linha de de comunidades de prática (conhecimento), espaços de troca/comunicação (relacionamento).
E deixam as Redes de Ação, que são quase 80% dentro de uma organização para depois, ou acham que não se deve pensar nesse campo, pois Rede Social é uma coisa e trabalho é outra!

Entretanto, ao analisarmos tanto o movimento cultural que estamos passando e as redes corporativas de hoje vemos que é um ganha enorme de tempo e custo pensarmos em redes corporativas que mudem os processos das organizações e não apenas relacionamentos e conhecimentos.
O difícil é que as Redes Sociais Corporativas Digitais que mudam a ação implicam justamente em uma mudança de cultura e não podem ser implantadas no meio de processos.
Ou seja, não é possível em um processo que começa em “A”, passa por “B” e vai para “C”, por exemplo, implantar uma rede social em “B”, pois vai se ter problemas em “A” e “C” que não vão conseguir se comunicar, pois são maneiras de pensar e resolver problemas diferentes.
Assim, a missão de um agente de mudança é ter consciência de que a implantação de Redes Sociais Corporativas Digitais é uma mudança global nos processos da empresa, tanto nas ações e processos, quanto na forma de gerir o conhecimento, quanto na maneira de se estabelecer o relacionamento.
Como premissas podemos dizer:
a) deve-se escolher redes de ação que permitam trabalhar com processos de início/meio/fim em que toda a cultura possa ser pratica e não apenas em uma parte, pois não é possível duas culturas operarem na mesma direção;
b) não deixar que o processo seja visto apenas como uma melhora de relacionamento ou de conhecimento, pois é uma parte pequena do todo;
c) quando fazem nessa linha as pessoas começam a dizer o seguinte, ou eu trabalho ou eu colaboro, pois as redes sociais entram de apoio e não mudando processos.
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação de Gestão Estratégica do Marketing Digital
Cases da Gestão da Desintermediação: My Fab e LiveOps
28/10/11
Por Carlos Nepomuceno*
Em resumo, o mundo procura desintermediadores – Nepô – da coleção;

Versão 1.1 – 28/11/2011 (Beta ainda em revisão.)
(Continuação do post sobre Gestão da Desintermediação.)
Tenho defendido a necessidade de unificar um conjunto de ideias e práticas para consolidar o conceito da “Gestão da Desintermediação“, que é a passagem de organizações mais intermediadas para menos intermediadas, eliminando intermediadores desnecessários.
O principal obstáculo que vejo quando se fala em desintermediar é considerar que o processo da organização vai virar uma bagunça, ou a “Casa da Mãe Joana 2.0″. ![]()
O problema é que estamos muito focados em achar que a mudança é tecnológica: do mundo analógico para o digital, mas, no fundo, o processo mais difícil é conseguir passar de um mundo com um dado controle social mais centralizado para outro com menos, através de mudanças de cenário, a partir das redes sociais digitais, que nos obriga a alterar mentalidades, metodologias e tecnologias.
Por isso, precisamos de instrumentos para intervir de forma consciente na gestão, através de um método, que estou chamando provisoriamente de Gestão da Desintermediação (até encontrar nome mais aderente) para chegarmos ao ajuste necessário.
Vamos detalhar, na sequência, case interessantes que demonstram na prática o processo de desintermediação em curso, tentando mostrar a sua lógica e como isso é possível, demonstrando que o objetivo ao tentar alinhar às organizações às redes sociais, objetiva-se reduzir custos, ampliar valor e aumentar o grau de inovação e competitividade.
Falemos da MyFab, empresa de móveis, um case publicado pela Harvard Business Review brasileira, de outubro de 2011.
MyFab – uma nova relação desintermediada com os clientes
A MyFab foi criada por quatro empresários em Paris, que abriram o negócio em 2008, através de uma loja de móveis pela Internet. Ao invés de montar grandes estoques de móveis, como as concorrentes, a MyFab trabalha com um catálogo de modelos possíveis.
O interessante que há, desde o início, uma mudança na mentalidade do controle da produção, talvez algo que todos já ouviram falar: alinhar não a produção não ao produto, mas nos clientes.
Isso é algo radicalizado nas redes sociais digitais.
No modelo anterior, de um mundo sem rede social digital, o produtor tentava imaginar, até fazendo pesquisa o que o cliente queria, arriscava-se a produzir o que ele intuía que iria bombar, definia um número “x” de peças a serem produzidas, produzia, armazenava no estoque e criava uma campanha de marketing/propaganda para vender para o consumidor, que só entrava no processo ao final.
O risco era alto.
O consumidor pesquisado podia não representar o todo, ou ter dito coisas na pesquisa que não era bem o que pensava. Acertar desejos e realizações sempre foi e será um desafio das organizações.
No novo modelo da rede social digital escolhida, cuja a base é uma nova mentalidade do controle, a MyFab não se considera a vidente do desejo do cliente, mas resolve incorporar o cliente no processo de produção, mudando a forma de controle de eu-sei e você não-sabe.
Utiliza-se, para isso, de redes sociais digitais dentro da produção e não apenas como elemento de marketing ou divulgação, que é o default do mercado.

A empresa passa a criar uma relação de troca, dando ao cliente a oportunidade de interferir na linha de produção, personalizando e pedindo para que ele colabore, um modelo similar que faz a Camiseteria, no Brasil, ou a um conjunto de novas editoras de livros, que só imprimem por demanda, como é o caso do Clube dos Autores.
Ainda em cases similares, podemos falar da conhecida Dell, que montou um modelo de negócios de venda de computadores, a exemplo da MyFab, que produz e monta os equipamentos, a partir das demandas dos usuários, eliminando uma rede de intermediários.
O cliente ajuda, assim, participando a melhorar os produtos e reduzir risco, por sua vez custos, pois só são colocados em produção de forma individualizada, sem pontos de varejo, estoques, distribuição ou rede de logística, com 100% de certeza ao se iniciar o processo de produção.
A da HBR, de outubro de 2011, diz ao comentar o modelo MyFab:
“Ao simplificar a cadeia de suprimentos e produzir só o que o público queria, a MyFab conseguiu cobrar preços consideravelmente menores do que os de lojas convencionais de móveis (…) utilizando as tecnologias existentes para satisfazer as necessidades do público”.
O que eles fizeram, se formos analisar o novo modelo desintermediado?
1) ao invés de tentar imaginar o que o cliente gostaria, passaram a incorporar o cliente dentro do processo de produção dos móveis, aproximando-o e criando um vínculo. O recado que está sendo passado é: você sabe tanto quanto eu o que deve ser produzido, não sou mais que você, vem fazer uma parceria comigo para realizar um ganha-ganha?;
2) tal fato, só é possível quando se adota inicialmente uma maneira nova de se pensar os negócios, dentro de um novo cenário, se faz uma revisão na mentalidade de controle e, a partir destes passos, bem consolidados, adotam-se tecnologias desintermediadoras, usando recursos de redes sociais digitais, no qual é possível que o cliente vote e defina a relevância de cada um dos produtos;
3) elimina-se a necessidade de estoque, pois é um modelo digital, de compra e venda direta entre o produtor e o consumidor. Aqui, elimina-se um conjunto de intermediários: pesquisadores, designers prospectivos, vendedores, estoquistas, controladores do estoque. No lugar, devem vir os gerenciadores da plataforma, profissionais de relacionamento com as comunidades, ajustadores de processo da relação do pós-venda para que as reclamações sejam rapidamente incorporadas ao processo.
Um modelo assim exige, além de tudo, também um novo modelo de gestão em rede, no qual o usuário e o fornecedor dos insumos devem fazer parte de uma redes social digital produtiva, que vai além de troca de informação, pois o usuário passa, na verdade, a ser o acionador para a esteira da fábrica começar a funcionar.

Por debaixo de todo o processo de desintermediação, na verdade, existe um resgate de um canal de comunicação perdido, que já teve e se perdeu, ou era inexistente, pois pelo modelo de negócio possível não havia um método seguro e barato de saber o que o consumidor queria.
Eram feitos formulários, reuniões presenciais, visita a locais de consumo, porém, com um custo e uma margem de erro grande.
Note que a rede, além de tudo, pode servir não só como esse campo de pesquisa, com um adicional: em uma pesquisa o usuário diz o que ele acha ou quer que achem. Na rede, através dos cliques, a empresa tem a possibilidade de saber o que realmente ele fez, viu, comprou, no que chamamos de rastro involuntário que todo internauta deixa.
A não utilização de um método desse tipo para reduzir riscos na produção é uma verdadeira insanidade de uma organização. Foi o que amadureceu a MyFab.
Ou seja, cria-se uma nova ponte de comunicação/operacional com o cliente, através de uma plataforma colaborativa em rede social digital.
No caso das fábricas de móveis tradicionais o profissional do designer era o senhor absoluto dos desejos os consumidores, com vários cursos feitos, mas deixavam de dialogar com quem, de fato, comprava.
Com a desintermediação foram tirados atravessadores nesse diálogo organização/cliente. Há um novo processo de comunicação, tanto na conversa, mas, principalmente na inclusão do cliente dentro do processo produtivo.
Estamos, assim, saindo do modelo de produção.
Eu faço, divulgo, convenço e pergunto depois.
Para um modelo.
Em chamo para fazer junto, pergunto e produzo, e divulgo, contando com o apoio de quem me ajudou a fazer.
Em um modelo que podemos chamar de co-criação, que é, na verdade, a aproximação das partes, desintermediando e ganhando velocidade e aderência, mantendo a empresa competitiva, pois cria um laço forte de fidelização com o cliente, que define o que quer.
LiveOps – uma desintermediação com o relógio de ponto
O mesmo caso, com cores diferentes, pode ser visto na LiveOps, empresa de callcenter.
Qual era o problema ali?
Havia horários de pico de muito movimento e outros com pouco.
Contratar pessoas com horário integral era algo que criava um problema de fluxo, quando se precisava de mais gente, não tinha, pois era impossível prever a demanda/oferta.
O que eles fizeram, usando a rede social digital?
Criaram um modelo de horários flexíveis.
Aqui o que foi desintermediado foi o relógio de ponto. ![]()
Uma pessoa que tenha pouco tempo na semana, por ter filhos, outros trabalhos, etc, define as poucas horas por semana que poder estar disponível para atender chamadas do callcenter.
Um sistema inteligente é usado para utilizar, chamar e colocar em ação esse conjunto de pessoas, conforme a demanda, conseguindo ter flexibilidade para juntar oferta.
Nesse sistema, utilizam-se do “Karma Digital”, que, pelo uso da plataforma conseguem monitorar o desempenho de cada atendente e priorizar os mais bem colocados na hora de direcionar chamados.
É fundamental nos projetos de desintermediação o uso inteligente dos rastros que os usuários vão deixando, sejam colaboradores ou clientes.
Com eles, só com eles, é possível medir relevância em um mundo com tanta informação.
Isso cria uma desintermediação de quem avalia a capacidade de um determinada pessoa.
Não é mais o chefe que diz sozinho quem é quem, mas essa avaliação de cima da hierarquia, é confrontada com os dados colhidos pela plataforma, que aponta como cada personagem está sendo avaliado pela comunidade.
É preciso criar essa metodologia no processo e ter tecnologias que possam de maneira fácil ajudar nessa avaliação.

De novo, temos um processo de flexibilização da rede, a partir de uma inovação na forma de contrato, na desintermediação na avaliação de cada colaborador.
Por fim, é bom lembrar que a desintermediação se faz presente em várias áreas, como até na conservadora área de seguros, com negociações completamente virtuais, vendas online de apólices, através de cotações geradas pela plataforma.
São exemplos nessa direção: Segurar.com, EscolherSeguro, Smartia e Sossego (Dados retirados da Época Negócios de Outubro de 2011.)
Uma das principais investidas em novos negócios do mundo, a Tiger Global Management tem investido no Brasil em novas empresas desintermediadoras de negócios tradicionais. Muitos verão esse investimento como algo curioso e não como um indício do futuro, mas notem que os investimento seguem uma linha de cortar atravessadores para inovar, a ver:
Serviços Gerais/ o que está desintermediando?
Vostu (Jogos online) – vídeo-game, jogando-se direto pela rede;
Netmovies (filmes) – vídeo-locadoras;
ImovelWeb (imóveis) dos corretoras de imóveis;
Compras coletivas:
PeixeUrbano/Mequedouno/Atrapalo.com – classificados de ofertas;
E-coomerce:
Baby.com.br – lojas de bebê;
NetShoes – lojas de esporte;
Mercado Livre – classificados pessoas físicas, sebos, feiras de camelôs;
Oquevestir.com.br – lojas de roupa.
Serviços de Turismo:
BestDay/ClickHotéis/Decolar.com – agências de turismo;
Sites de empregos:
Catho/Bumeran.com/Manager – classificados/headhunter.

Quer dizes?
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital
O hiato da lógica
07/04/11
O hiato da lógica
abr 6th, 2011 by Carlos Nepomuceno
Sem uma lógica eficaz, não há conteúdo que não vire lixo – Nepô - da safra de frases de 2011;

Para mim, está cada vez mais claro que temos dois tipos de cabeças pensantes hoje na sociedade, discutindo o futuro.
- - um grupo que insiste na continuidade, sem compreender que estamos no epicentro de uma revolução informacional/comunicacional e tudo que ela representa de mudanças;
- - outro que já realizou tal fato e tenta compreendê-lo, com variações grandes também de percepção, mas já dá a ela alguma relevância ao pensar mais adiante.
Podem me dizer que “para o martelo todo o problema é prego” como já escutei de uma pessoa.
E que estamos olhando o mundo sobre o prisma da informação/comunicação, assim como o médico olha do ponto de vista da saúde e o piscólogo do inconsciente, etc…
Na calmaria tem lógica, na crise, não.
Definitivamente não.

Nas grandes crises existem coisas, fatos, acontecimento que mexem com as pessoas, independente das teorias, são fenômenos externos para os quais os especialistas são chamados para ajudar a entender e minimizar consequências.
É o caso agora nos eventos trágicos no Japão.
Primeiro, foram os que entendiam de terremoto e depois os que estudam radiação e energia nuclear.
São fatos que ocorrem, a despeito das disciplinas.
Agora, chegou a hora dos especialistas em revolução da informação!
(Depois de 4 anos de doutorado, me arvoro em ser esse tipo de especialista, em processo líquido e não sólido.)
Uma revolução informacional/comunicacional é longa e demorada.
Seus efeitos estão apenas começando e vão levar algumas décadas até que possamos ver suas consequências de forma mais clara!
E nos leva para uma nova lógica.
Ponto.

É evidente que o consumidor, o cidadão e a sociedade de maneira geral estão em processo de mudança, discutindo e comentando, blogando, fotografando, filmando, participando, colaborando, produzindo em/de todos os lugares.
Vivendo e querendo mudar várias coisas que estão por aí há séculos.
Parece também estranho que se dê coisas de graça para se ganhar depois, se colabore sem retorno imediato.
Empresas surgem do nada, como nunca antes, e passam a ter mais valor do que aquelas que já têm séculos de estrada, experiência e lógica consolidada.
Novas formas de gestão aparecem, invertendo a lógica da pirâmide do acionista no topo e consumidor na base.
Parece que o consumidor está de novo casando com o produtor; a informação fez as pazes com a comunicação e uma certa hipocrisia entre o que se diz e faz não tem mais tanto sentido.
O mundo está de cabeça para baixo, dirão alguns.
Isso é fruto de algo do mesmo DNA: estamos mudando a forma de consumir e produzir informação e o jeito que nos comunicamos.
A forma como utilizamos a Informação/comunicação é algo estruturante do ser humano, algo na sua placa-mãe mais profunda.
Mudanças desse tipo mudam radicalmente a sociedade, pois alteram de forma irreversível fatores cognitivos (passamos a conectar os neurônios de forma diferente) e afetivos (já que o controle informacional é emocional da base da relação filho-pais).
Ponto.

No passado, foi assim também.
Basta ver que depois da prensa em 1450 criamos o capitalismo e o modelo de democracia.
Algo mudou naqueles cidadãos feudais, que não tinham contato com ideias do mundo exterior.
Ou nos conscientizamos que estamos em uma nova lógica, com várias fatores que nunca mudam – a substância.
E muitas se alteram – as camadas acima da substância – ou iremos patinar no presente e, principalmente, no futuro.
- Que lógica nova é essa?
- Qual o seu DNA?
- Onde estamos e para onde vamos?
Podemos chamar esse momento de “hiato de lógica“, no qual existia uma bem definida no passado, na qual as coisas estava aparentemente “consolidada” para outra que estranhamos bastante.

Assim, temos que ir aos clássicos.
- O que realmente é fundamental no ser humano?
- Quais as características que levamos para todo o sempre?
- E quais são aquelas que podem variar por mudanças?
- E quais as que mudam em revoluções da informação?
Não é à toa que estamos tão perdidos.
O conteúdo, o consumo de fatos, dados, versões, notícias, novidades, precisam ter antes uma determinada lógica geral que os organize.
Quando se muda a lógica-mãe, digamos assim, é preciso refazer essa lógicas-variantes para depois poder consumir, de novo, o conteúdo dentro de um novo reequilíbrio.
Foi em função disso que pós-revolução informacional da prensa, a partir de 1450, levou aquela sociedade viver um surto filosófico, com o iluminismo, renascimento, no qual as pessoas sentiram necessidade de responder estas questões acima, de forma mais profunda.

Conteúdo sem lógica é algo completamente inútil.
E este é o problema de quem filtrava a sociedade no passado – a mídia de massa – estão produzindo conteúdo novo, mas com lógica passada.
E a sociedade está perdida, pois não consegue mais entender que ocorre, olhando os fatos e lendo as versões que produzem.
Ninguém tira significado disso.
Só há significado quando já estivermos trabalhando na nova lógica pós-revolução informacional/comunicacional.
Diria, assim, que a sociedade precisa de um banho geral de espuma lógico dentro de uma revolução informacional/comunicacional.
Sem nos debruçarmos nesse DNA principal da mudança , que alinham várias outras o conteúdo que estamos produzindo e lidando perderá, como tem ocorrido, o sentido.
Estamos produzindo dados sem uma lógica que o sustente.
Patinamos, assim, nesse hiato da lógica.
Que dizes?
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na pós-graduação de Gestão Estratégica do Marketing Digital
O fenômeno Internet, por Carlos Nepomuceno
03/03/11
Ninguém muda nada, se não muda - Nepô - da safra 2011;
Já tanto falamos e falei sobre isso….Internet.
E, de fato, esse é um exercício constante: nos aproximar e se afastar de dado fenômeno/objeto, para que ele vá se tornando menos turvo.
Amadureci, por exemplo, que a realidade é impenetrável e chegamos a ela, através da aproximação, para que vá sendo modelada, pincelada e possamos atuar sobre ela com menos incerteza, compreender seus contornos, seu movimento de chegada e para onde se encaminha.
Para essa tarefa temos que ir contra, os modelos mentais que existem na sociedade e são absorvidos por nós, quase que por osmose, na família, escola, meio social, principalmente, através da mídia.
Conhecer é ter consciência desses conhecimentos absorvidos, refletir e repensar sobre ele, fazendo um processo de re-aprendizado.
- Conhecer é, portanto, desaprender e ver de novo.
- Conhecer é problematizar o que parece consenso.
- Conhecer é rever o senso comum e sofisticá-lo.
O que nos leva à procura de sair da mistificação que fazemos do mundo e de nós mesmos.
Não existe pesquisa que não leve o pesquisador a se repensar.
(Se existe tal aberração (que é a prática mais comum hoje em dia), é uma falsa-pesquisa, alienante para quem a faz e talvez menos valorosa para a sociedade, pois não tem o afeto/intuição do pesquisador envolvido, um grande aliado para a procura da nunca atingida “verdade”.)
Isto posto, podemos dizer que existem fenômenos sociais que são provocados conscientemente pelos humanos e outros que ocorrem a despeito deles.
- Uma revolução social é algo consciente, com uma meta e uma luta de um conjunto de pessoas. É um fenômeno social com um nível de consciência, pelo menos, por um grupo de pessoas.
- Uma pandemia é algo que independe de nossa vontade, ninguém provocou tal fenômeno (pelo menos não se registrou casos de sabotagem nessa direção, até hoje). Pode-se procurar ações para evitá-la, mas são ações preventivas e não que geram o fato;
- Estão ainda entre fatos alheios à vontade humana as forças da natureza: terremotos, erupções, maremotos, enchentes, tsunamis, etc…
A Internet é um misto entre essas duas coisas e isso a torna mais complexa, diferente e temos mais dificuldade de compreendê-la.
Ela é acionada pela humanidade por um lado, mas sem taxas elevadas de seu propósito e consciência de sua dimensão e consequências, vide a sua história que está longe de ter um gênio que previu tudo isso.
Podemos dizer, assim, de forma melhor, que a taxa de consciência é muito mais baixa do que outros fenômenos sociais.
Ela existe aqui e ali, mas é pouco clara.
Não é um ato humano com consciência plena e um projeto orquestrado por alguém com uma consciência maior, como uma revolução social.
Não tivemos uma empresa por trás de tudo isso.
Porém, é um evento humano, pois as tecnologias que nos levaram a ele foram feitas por nós.
Ou seja, há um processo em curso, em que temos diversos atores que, no máximo intuem, mas não têm a dimensão e o propósito final para onde estamos indo.
A Internet se aproxima, assim, da criação da fala (inventar palavras e reproduzi-las) e da escrita (representar essas palavras em um suporte), um projeto coletivo, que todos sentiram necessidade, aderiram rapidamente, contribuíram para sua formação, porém, não havia um núcleo consciente de sua implantação.
(Procuro exemplos fora da informação e não me ocorrem. Transportes? Quem ajuda?)
Considero que esse tipo de fenômeno merece um nome.
Acredito que são fenômenos paradigmáticos, no caso um fenômeno paradigmático informacional inconsciente.
Explico.
Um paradigma é um conjunto de ideias sobre determinado fenômeno.
Uma ruptura de um paradigma é quando esse conjunto de ideias não consegue criar um contorno eficaz de um determinado fenômeno e todas as propostas para minimizar seus efeitos não surtem resultados.
(Que é o que está ocorrendo hoje no mercado com a implantação de projetos de redes sociais, empresas 2.0, etc. Estamos adotando práticas com um paradigma anterior à chegada da Internet, mas com ferramentas e ações que refletem o outro momento. Ou seja, há uma crise de modelos mentais, antes de qualquer coisa.)
Um fenômeno paradigmático é algo novo para qual os nossos conhecimento anteriores não estão prontos para compreendê-lo.
Diferente de uma mudança mental de modelo, como a Teoria da Relatividade, cujo o fenômeno novo foi a capacidade de Einstein de olhar para as teorias vigentes e juntar aquilo que outros não conseguiram.
E no caso de ser um fenômeno paradigmático informacional inconsciente ele atua na sociedade, independente de nossa vontade.
Quem começa a ler, passa a ler e pronto.
E começa a mudar a maneira de se relacionar e encarar o mundo.
Adotá-lo é assumir um novo tipo de resultados, consequências, que só pode-se ter domínio e controle sobre eles se tivermos dentro de um novo modelo mental, compatível e na compreensão do fenômeno geral.
E isso não é o que ocorre neste momento.
Um fenômeno paradigmático pode ser uma pandemia nova, ou um novo tipo de fenômeno solar, que exige uma revisão de modelos mentais relevantes para uma dada Ciência.
Um fenômeno paradigmático informacional inconsciente, como é o caso da Internet, exige que façamos um dever de casa de compará-lo a situações similares e possamos criar uma nova teoria sobre fenômenos dessa natureza na sociedade.
Suas causas e consequências.
(Ainda mais em algo como a informação – parte integrante da nossa atividade diária, como respirar e comer, com consequências radicais para a sociedade.)
Ou seja, estamos diante de uma grave crise teórica, tendo que tomar rapidamente decisões práticas, pois o avião está no ar.
Querem dirigir um boeing com carteira de motorista de um táxi.
Estamos pilotando um carro novo, mas com o manual do carro passado. Podemos colocar a seta para a direita e estarmos acionando o air-bag!
Pior, tudo isso acontece num mundo em que todos têm pressa, ninguém quer parar para pensar e teorizar, que se quer ganhar dinheiro para semana que vem, que o planejamento estratégico é o de amanhã.
Num mundo em que a academia (pseudo redentora da verdade e das boas teorias) está voltada para ela mesma com falsos-problemas circulares, enredada em processos de produção, publicação e validação do século passado, alheia aos benefícios que a grande rede digital colaborativa traz para o conhecimento humano e para ela própria.
Num mundo dominado por sujeitos mistificados, com dificuldades afetivas/cognitivas de darem um salto de abstração que o momento exige, enredados em caixas fechadas, fruto de uma mídia vertical e alientante, que nos tolheu o diálogo e nos tirou a filosofia para respirar, um processo que já dura alguns séculos.
E, por fim, num mundo dominado por uma filosofia pragmática americana, que todos dizem amém, que difundem uma visão a-histórica do mundo e estão muito longe como todos os “estrangeiros” (Lévy, Castells, Wolton) que estão apontando novo destino.
É diante dessa crise teórica e prática que o mundo caminha numa corda bomba sem rede de proteção.
Um coletivo oculto, sem saber, disse para nós:
Virem-se!
É o que estamos tentando fazer!
Aos trancos e barrancos.
Entretanto, pode ser muito menos traumático, depende da nossa capacidade de sair da caixa em que nos encontramos.
Que dizes?
Nepomuceno
nepo.com.br
Serviços oferecidos (consultoria, palestras e grupos de estudos presenciais e on-line)















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