Lidando com ídolos
Por Flávio Dias*
Me considero uma pessoa nova. Aos 42 anos de idade, no entanto, volta e meia me pego tendo lembranças de um passado distante em que você ia ao estádio de futebol com amigos, via os jogos nos vídeo tapes na TVE (era assim mesmo que se falava!) com Januário de Oliveira ou José Cunha e comprava o Jornal dos Sports na segunda-feira antes de ir para o colégio e depois faculdade. Era uma adoração estar nos treinos dos clubes, e eu ia em muitos, sempre reconhecendo craques e destaques da época. Lembro quando ainda morador da Urca, fui ver a seleção de 1982 na Escola de Educação Física do Exército e ficava encantado com Zico, Sócrates, Falcão e outros, somente por estar bem perto. Ter um ídolo é muito bom para a formação de uma personalidade, desde que este ídolo seja grande e capaz de bons exemplos. Sou torcedor do Vasco, confesso, mas sempre tive Zico como o grande cara, encantando com aquele 10 que jogava muita bola. Como o queria em meu time, mas não tinha! E este foi um ídolo que marcou por ser sempre correto, familiar, perfeito para um jovem que o admirava. Tenho certeza que formou-se uma geração de fãs como pessoas boas, de caráter, por que tinham em Arthur Antunes Coimbra um homem na acepção da palavra.
Cresci com este conceito, pensando que um dia ia ter filhos e que gostaria muito que pudessem nutrir sua formação de opiniões pela postura de um ídolo. Os meus iriam mudar, por certo. Políticos? Era uma esperança de um grande país, mas infelizmente cresci frustrado sem um ícone na política nacional. Lembro quando Tancredo Neves surgiu para a minha geração. Era como se fosse o novo Mártir da Independência. Santa carência. Há muito não se chorava tanto a morte de um homem da política como foi aquele. Meus ídolos não apareceram mais nas mais diversas áreas e voltei ao esporte. Sempre ele. Saudável na prática e sano na mente, como diz o ditado em latim. Ayrton Senna alegrava nossos domingos. Mas ele se foi, tragicamente. Surgiu Guga. Neste meio tempo o futebol voltou a conquistar. Mas não sei por que razão, a idolatria mudou de foco. Minha filha nasceu e ela gosta de meninas que cantam, grupos teen e alguns poucos franguinhos que se esgoelam. Só que são ícones, como foram para mim. Preciso respeitar, entender e dar força dentro do possível.
Sabe por que contei esta trajetória de fã? Por que entendo o que é isto e sei o quanto é importante para quem trabalha na mídia, seja ele pedra, seja ele vidraça, jornalista ou assessor de imprensa, que possa compreender este “diferente” no mundo. Trabalho com esporte. Continuei com ele. E por incrível que possa parecer a coincidência, lido com ídolos da atual geração diariamente. São pessoas normais, estrelas é verdade, porém muitos com coração e alma. Pessoas carentes, pessoas do bem, pessoas fortes e frágeis, com dúvidas e certezas. Só que para cumprir meu papel de formador de boas imagens e apagador de incêndios, preciso administrar jornalistas que se misturam como fãs e/ou profissionais, tietes, “malas” queridas e “malas” difíceis e principalmente filtrar o humor do atleta.
Jogador de futebol é um ser cíclico, que independente de ser conhecido demais ou pouco conhecido tem as mesmas manhas e manias e que por conta disto diz não a autógrafos e não a entrevistas, sem saber que tais posturas podem ser marcantes para seu futuro, tornando-o antipático e pouco querido pela opinião pública. O papel do bom assessor é sempre aconselhar e forçar a situação para que ele esteja presente. Recentemente tive duas experiências como estas. Uma envolveu o craque e ídolo do Vasco da Gama, Juninho Pernambucano. E envolveu o IGEC. Sair de casa, dar uma palestra para mais de 100 alunos e distribuir sorrisos e autógrafos. Qualquer um poderia reclamar e não ir. Juninho é diferente. Reclama igual, mas ouve quem ele sabe que pode trazer benefícios, no caso o assessor. Inicialmente o medo do contato no auditório da FACHA, local da palestra. Depois, o agradecimento por um momento particularmente leve e descontraído e que agregou valor a imagem dele e o tornou mais ídolo dos muitos que achavam que ele não iria lá. Ponto a favor de quem conhece a palavra ídolo.
Outra experiência foi com o ídolo do Botafogo, Loco Abreu. O canal de esportes FOX estava organizando uma grande festa no Copacabana Palace. Já havia conversado com ele sobre esta chance de se aproximar de um grande meio de comunicação para um atleta em fim de carreira e que poderia seguir o rumo de um comentarista da FOX América Latina. No início, um momento claudicante. No fim, um convite para comentar um jogo e a possibilidade de um contrato. Imaginem a decepção que seria se Loco não aparece no evento, pela figura que é e o que representa.
Sinto isto. Vivo com isto e sei o quanto as pessoas querem um retorno. Quando em um restaurante, lugar público que seja, uma pessoa pede autógrafos ou fotos e dizem sempre as mesmas frases “sou botafoguense doente”, “meu pai é o maior vascaíno de todos”, “meu filho só fala de você”, “você é o Loco Abreu,né? (mais velhos!)”, dou força e sou eu que entro com o “sem problema, vai ser um prazer”, e ainda me travisto de fotógrafo e pego a máquina ou celular para fazer a imagem do ídolo e do fã. Esta é uma das coisas que mais insisto em minhas aulas. Saber e entender que torcedor e jornalista são necessários demais para o andamento desta engrenagem. Atender, dar satisfação, sorrir e mesmo engolir uma “cornetada” de um fã, faz parte. Respeitar quem tem um ídolo é parte deste aprendizado. Quem trabalha neste meio de assessoria deve ter um bom poder de persuasão mostrando ao seu cliente o quanto é importante usar de feedback. Desta forma se cresce e se estabelece uma relação de respeito e confiança. Até para falar mal, vai se pensar duas vezes. Palavra de quem conhece, já teve e admira os ídolos.
Flávio Dias é professor de Assessoria de Comunicação na pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte
| Imprimir artigo | Este artigo foi escrito por claudio em 9 de fevereiro de 2012 às 8:00, e está arquivado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |








