Para entender a cabeça dos filósofos da tecnologia
A maior parte dos conceitos e estratégias que temos sobre internet vem de pensadores midiáticos americanos, que têm algumas características em comum, como não considerar o passado.
Por Carlos Nepomuceno*
Aquele que não conhece história, está condenado a repeti-la. George Santaiana, da minha coleção de frases
Comecei aqui uma nova jornada de estudos, através da Filosofia da Tecnologia.
A nova área visa não mais acompanhar como anda a tecnologia (algo praticamente impossível e sem nexo) e sim como pensamos sobre tecnologia (algo factível e com nexo), já que se soubermos como pensamos sobre teremos mais facilidade de saber como vamos usá-la.
Parece óbvio, mas não é prática.
Nessa linha, é importante conhecermos a fonte que bebemos, antes de analisar o teor de “cloro” da água e os seus resultados após ser degustada.
Temos três grupos de tecno-pensadores:
- Os alternativos (blogueiros, que não estão na grande mídia e exercem influência menor);
- Os midiáticos (blogueiros, ou não, que publicam livros, geralmente sem colocá-los na rede para leitura, com forte poder de influência);
- Os acadêmicos (geralmente não blogueiros, que publicam artigos científicos, com influência também menor).
E misturas entre tudo isso, alternativos acadêmicos, acadêmicos midiáticos ou midiáticos acadêmicos.
Como a vida não é simples, nem preto e branca, sigamos. Podemos dizer, assim, que quem faz a cabeça do mundo sobre tecnologia, principalmente as cognitivas (internet no meio) são os midiáticos, apesar de sofrerem influência e pressão dos alternativos e acadêmicos.
Normalmente, os midiáticos são americanos (Shirky, Anderson, Keen, Tapscott, O´Reilly, entre outros).
Portanto, a maior parte dos conceitos e estratégias que temos sobre internet são produzidas, concebidas, consumidas e digeridas, a partir de tecno-pensadores midiáticos americanos, que têm, entre eles, algumas características em comum.
1. Geralmente, não baseiam seus argumentos na história, seus livros começam no hoje e falam do futuro, como se não houvesse passado. Isso é, provavelmente, a influência da cultura do aqui e agora, do a-historicismo cultural, que temos uma descrição no bom livro do Guy Debord (francês), a
Sociedade do Espetáculo. Nele, ele diz: Um Estado em cuja gestão se instala por muito tempo um grande déficit de conhecimentos históricos já não pode ser conduzido estrategicamente.
2. Ideias sem origem prendem mais o leitor a seu dono, o que cria uma dependência cognitiva, forçando a ler o próximo livro.
3. Geralmente, são leitores de textos em inglês, com pouco espaço para estudos de autores de outros idiomas. Nós lemos eles, mas eles não nos lêem. Engraçado, pois nossos gurus estão em desvantagem, pois têm menos opiniões sobre o mesmo assunto, comparado aos demais que lêem bem em inglês; o brasileiro lê espanhol e vice-versa.
Ou seja, os que menos interagem no planeta interconectado são os que têm mais palco!
E geralmente são muito pragmáticos, pouco teóricos e, muitas vezes, avessos a tudo que pode se chamado de teoria, mesmo aquelas consistentes.
Consumimos e defendemos ideias desses pensadores.
Temos que, claro, ressaltar seus méritos, pois existem.
Mas saber das limitações, para complementá-las, o que normalmente não é feito. Engolimos anzol, chumbada e – às vezes – até o molinete!
E a nossa prática se espelha nesse conjunto de premissas, digamos, limitada, apesar de acharmos que temos “a verdade”, sem saber que tal “verdade” é construída por alguém.
Assemelha-se ao filme Origem, quando vamos ao ponto em que estão fazendo a nossa cabeça. Veja mais sobre isso aqui.
Fazemos, porque pensamos, a partir do que consideram bacaninha. O que explica nossa grande dificuldade de superar alguns conceitos sobre internet e compreender a marginalização de algumas ideias importantes.
Reflete, por exemplo, na não difusão em maior escala nas ações relevantes de grandes empresas e governos dos conceitos, tais como os de Lévy e Castells, que vão procurar estudar a história para entender o que estamos passando.
E justifica o estranhamento quando esse tipo de visão é passada, como se fosse algo do outro mundo. Sim, é de outro mundo: não-americano!
Ressalvo que não há pré-conceito contra o que vem dos EUA, pois tudo que é bom, seja de onde vier, vale a pena, não se pode é ser apenas de um lugar só.
Na minha tese de doutorado, quem se destaca e aparece com força é Pierre Lévy, que é tunisiano, que fez o contraponto a essa visão a-histórica. Parece que não lêem Lévy nos EUA.
Seus livros partem da compreensão da rede, através de um estudo da história da cognição humana, o que nos dá um sentido amplo para entender o fenômeno.
Outros que seguem na mesma linha são Castells (espanhol) e Burke (inglês). Todos fundamentais para compreensão do fenômeno.
Todos menos midiáticos e um pouco mais acadêmicos, porém de comunicação fácil. Lévy, que parece ser casado com brasileira, vem muito ao Brasil.
Castells nem tanto e Burke, idem. Se vieram, foi sem grande fumaça. Ficando com influência menor na nossa maneira de pensar.
Notem que a influência na maneira de pensar negócios no Brasil é muito forte e tem se passado para a visão que temos da internet.
Temos um “espírito de índios esperando as caravanas chegarem na praia”. Vide o espaço que damos ao importado, by EUA e como pouco valorizamos o que é produzido aqui ou em outras praças.
Isso nos remete a uma discussão ainda maior sobre modelos dos eventos no Brasil sobre tecnologia, futuro, internet, etc. São na maioria unidirecionais, um palestrante por vez, sem debate entre pensadores, sem interação forte com a plateia.
Não se paga ao palestrante brasileiro, só aos que vêm de fora e geralmente os caras que nem sempre vão agregar, para falar coisas até mais básicas, do que os nossos índios.
Quando Stallone diz lá fora que explodiria tudo aqui e ainda ganharia um macaco, dói ouvir, mas, na sua sinceridade de Rambo, há uma certa verdade dura de escutar.
Concordas? [Webinsider]
Fonte: http://webinsider.uol.com.br
*Carlos Nepomuceno é professor de Conversão 2.0 na Pós-Graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital
| Imprimir artigo | Este artigo foi escrito por claudio em 24 de agosto de 2010 às 18:18, e está arquivado em Gestão Estratégica de Marketing Digital. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |


há 2 anos atrás
O navegador novo Zune é surpreendentemente boa, mas não tão bom como o do iPod. Ele funciona bem, mas não é tão rápido quanto o Safari, e tem uma interface feios. Se, ocasionalmente, planeja usar o navegador que não é um problema, mas se você está planejando para navegar na Web muito do seu PMP, em seguida, uma tela maior do iPod e navegador melhor pode ser importante.