Texto enviado por Carlos Nepomuceno*

Por Rafael Sigollo | De São Paulo

Segundo Hamel, as empresas desencorajam a criatividade e a inovação com burocracia e estruturas inflexíveis

Os últimos cem anos foram marcados por grandes avanços tecnológicos que influenciaram de diversas maneiras a forma como as empresas operam. Mas se por um lado quesitos como produção, logística, propaganda e relacionamento com os clientes mudaram radicalmente durante esse período, as ferramentas e os princípios de gerenciamento de negócios e de pessoas continuam praticamente inalterados. Além disso, são aplicados de forma indiscriminada em setores completamente diferentes como bancos, mineradoras, montadoras de automóveis, redes de varejo e companhias aéreas.

Esse cenário, contudo, não vai se sustentar por muito mais tempo. Para manter as organizações vivas e competitivas no século XXI, a próxima geração de líderes empresariais será obrigada a promover transformações profundas no atual modelo de negócios. Ela vai ter que, basicamente, reinventar a administração.

Essa é a opinião de Gary Hamel, eleito um dos pensadores de negócios mais influentes do mundo pelo “The Wall Street Journal” e um dos fundadores da Strategos, consultoria estratégica e de inovação. Ele falou ao Valor em recente passagem pelo Brasil, onde veio realizar palestras e lançar o livro “What Matters Now: How to Win in a World of Relentless Change, Ferocious Competition, and Unstoppable Innovation” (O que importa agora: Como vencer em um mundo de constante mudança, concorrência feroz e incontrolável inovação).

“Desde a era industrial, o foco das companhias está em impor hierarquia, obter controle, disciplina e aumentar a produtividade de seus funcionários. Porém, elas vão ter sérios problemas se não começarem a falar sobre paixão, criatividade e inovação”, afirma. Elas, no entanto, desencorajam tudo isso com burocracia e estruturas inflexíveis.

Para Hamel, tudo terá que ser diferente na administração, desde a forma como as empresas contratam até como remuneram e oferecem oportunidades de carreira para as pessoas. E mesmo os gestores que já se deram conta dessa nova realidade ainda não entenderam a urgência e o tamanho do problema. “Os executivos sabem que algo está acontecendo, mas não conseguem especificar quais são os fatores críticos e muito menos como resolvê-los”, diz.

Para tanto é preciso pensar, ao mesmo tempo, em objetivos “revolucionários” de longo prazo e em pequenas ações que possam ser testadas no dia a dia. “É possível experimentar ideias em pequena escala sem interferir de forma acentuada na operação. Basta aplicá-las em grupos menores como em um dos escritórios ou divisões e observar as reações, se aquilo funciona ou não.”

Um grande entrave para que isso aconteça, porém, é que na conta dos executivos o controle quase sempre supera a liberdade – essencial para a inovação. “Só porque você não quer que o futuro aconteça, não significa que ele não acontecerá”, alerta. Com isso, Hamel dá ênfase ao atual contraste entre o engessado ambiente corporativo e a internet. “É uma plataforma voltada para a inovação e para a colaboração, que consegue se adaptar rapidamente às mudanças e engajar as pessoas. Os próximos líderes estão crescendo totalmente familiarizados com esses conceitos.”

De acordo com ele, por estar crescendo, ter uma economia estável e recebendo atenção de todo o mundo, o Brasil deveria aproveitar para dar um passo à frente na busca por novos modelos de gestão. “As empresas vivem um bom momento no país, mas isso não as torna mais competitivas globalmente. Crescimento acelerado nem sempre significa boa gestão, Índia e China são a prova disso”, afirma.

Fonte: Jornal Valor, 16/04/12

*Carlos Nepomuceno é professor da pós-graduação em Gestão Estratégica do Marketing Digital