Entrevista da Profa. Alda Marina para o site REP – Educação e Terceiro Setor

por Erica Cristina da Silva Gomes com colaboração de Gustavo da Silva Barbosa

Alunos que cada vez mais aprendem pela linguagem digital e visual. Professores que historicamente ensinam utilizando recursos verbais e da escrita. Como estreitar a relação entre docentes e estudantes em uma época de transição metodológica imposta pela massificação das tecnologias de comunicação? Conciliar o compromisso curricular-pedagógico e as expectativas desta geração da era digital é uma das metas que precisam estar presentes na agenda profissional dos educadores.

Há meios para que essa aproximação em sala de aula se faça em via dupla, através da mediação tecnológica. Popularização de câmeras digitais, uso de celulares que gravam sons e acesso à internet podem ser aliados para que os alunos tornem-se mais atuantes no processo de construção do conhecimento. Os professores, por sua vez, dispõem de ferramentas oferecidas pela informática que se apresentam como possibilidades de auxílio na dinâmica educacional. A adequação a essa nova lógica também apresenta resultados em modalidades de ensino, como a educação a distância. O investimento dos gestores nesses instrumentos e a capacitação técnica do corpo docente são tarefas que parecem inadiáveis.

Para saber como essas alterações no universo educacional têm afetado as práticas pedagógicas, a REP conversou com três professores e pesquisadores de diferentes instituições de ensino do País. A administradora Alda Marina Campos é professora do MBA de Gestão de RH do IAG da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), do MBA de Comunicação Estratégica do Instituto de Gestão e Comunicação (IGEC) das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) e integra o corpo docente do MBA a distância in company. O sociólogo e professor Alexandre Borges é pesquisador no Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São Paulo (USP). Ele também é consultor da área de práticas pedagógicas para escolas e empresas. Rodrigo Farias de Sousa é jornalista, escritor, historiador e professor de História do Instituto de Humanidades da Universidade Candido Mendes (UCAM).

Como você analisa a apropriação e o uso dos avanços da tecnologia como ferramentas para o aprendizado?

Alexandre Borges: Com otimismo e cautela. A banda larga já é realidade em 66% das escolas públicas urbanas no Brasil. A lousa interativa digital vem se tornando uma ferramenta cada vez mais presente na rede privada de ensino. De 15 anos para cá, a sala de informática tornou-se espaço presente no processo de aprendizagem na quase totalidade dos colégios. É o lugar onde os alunos podem acessar conteúdos que enriquecem visualmente os temas propostos pelo professor. Por outro lado, a leitura e pesquisa nas bibliotecas das escolas têm ficado marginalizadas pela facilidade e rapidez com que os as ferramentas de busca trazem os conteúdos prontos para serem copiados e impressos sem passarem pela leitura atenta dos alunos. Isso é uma realidade que preocupa. Os recursos tecnológicos devem servir como estímulo e não como fim dos conteúdos.

Foi atribuída à tecnologia a “esperança” de que ela fosse resolver os problemas da qualidade da educação. O que você acha disso?

Alda Marina Campos: A tecnologia trouxe recursos adicionais à educação, bem como atalhos valiosíssimos. Há vantagens difíceis de questionar. Por exemplo: o acesso a fatos ocorridos em tempo real e a um volume muito superior de informação; a conectividade com os alunos para auxílio à construção do conhecimento; e a possibilidade da elaboração de saberes em rede. Mas a qualidade se avalia pelo resultado obtido através do processo educacional, que continua demandando de forma imprescindível do fator humano. É preciso ter profissionais bem preparados para auxiliar o aluno a trilhar o caminho. Sem um contínuo investimento na melhoria dos educadores, inclusive na sua qualidade de vida, não tem tecnologia que resolva os problemas.

Você classificaria a concepção clássica de uma aula como ultrapassada? Acredita que esse modelo não corresponde mais ao perfil dos atuais estudantes?

Rodrigo Farias de Sousa: Assumir que sim seria admitir uma hipótese estranha: que o aluno desprovido de uma tela colorida com sons engraçadinhos, e talvez um joystick, seja incapaz de se concentrar para aprender alguma coisa. É o fetiche da tecnologia que parece supor que as crianças de hoje são estruturalmente diferentes das demais épocas. Não são. Mas, para se aproximar e despertar o interesse delas é preciso conhecer seu universo e, assim, apresentar-lhes conteúdo diferente e estimulante. Claro que há lugar para a aula clássica. Ela somente não deveria ser a única opção.

O grupo de jovens classificado como Geração Y representa grande parte dos estudantes que estão, hoje, no ensino médio e nas universidades. De que forma você analisa a sintonia e a preparação dos educadores no sentido de lidar com esse público informado, ávido por inovações e que faz tarefas múltiplas?

Alexandre Borges: A expressão que mais se ouve nas empresas hoje em dia é: mantenha o foco! Um jovem que responde a vários estímulos pode muito bem realizar suas tarefas estando conectado ao MSN, ao MP3 e a uma TV ao mesmo tempo. Mas qual a profundidade de realização desse trabalho? Por quanto tempo um aluno da chamada Geração Y ou Z dá conta de sustentar um assunto, sem fugir da pergunta inicial, abrindo inúmeros leques de possibilidades? Por qual período um profissional como esse permanece numa relação amorosa, em um mesmo emprego? O professor deve estar atento nesse cuidar da liberdade do aluno de múltiplas tarefas para que ele não se perca na sua gestão de tempo. O educador também deve se atualizar com o mínimo de informações necessárias para dialogar sobre o mundo na linguagem digital e visual, sem perder de vista os princípios fundamentais e permanentes para a formação do estudante. Nesse sentido, é sempre bom lembrar dos quatro pilares propostos pela UNESCO: aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a aprender.

Como você avalia a mobilização e o nível de interesse da comunidade educacional em relação ao uso de recursos tecnológicos no processo de aprendizagem? Você acredita que é um tema que está latente nesse setor aqui no Brasil?


Alda Marina Campos
: Percebo empresários e profissionais da área administrativa do setor com o olhar voltado para a educação a distância, seja essa parcial, para complementar a educação presencial, ou integral. Essa visão é direcionada pela dinâmica da vida moderna, com sua escassez de tempo e demanda por flexibilidade. Vejo instituições de ensino buscando entender as metodologias existentes em outras instituições e olhando para os seus públicos atuais para encontrar o melhor modelo, para entender que customização será viável. Os educadores experimentam essa demanda no dia-a-dia e as levam às áreas administrativas.

Como você descreveria a “educação do futuro”?

Rodrigo Farias de Sousa: Uma educação que não menospreze o lado afetivo da relação educador-educando e que se baseie na interação humana, não em máquinas (ainda que as use). Esses dois pontos são a alma da educação. Nada os substitui. O resto são recursos. Sem isso, o que se tem é mero treinamento, não muito diferente do que se administra aos animais.

Fonte:www.repweb.com.br